BEM VINDOS!

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Neste blog, postarei reportagens, atividades que realizei em sala de aula, atividades postadas em outros blogs, atividades retiradas de livros.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009


Editora moderna on line

O dia em que descobri que nasci professora

Rosemary dos Santos

Professora de Informática Educativa da Escola Municipal Professora Olga Teixeira de Oliveira, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro

Hoje acordei pensando em desistir de ser professora. Sei lá, fazer outra coisa. Chega! Disse para mim mesma quando o relógio despertou: pronto decidi, vou ser secretária, atendente, camelô, qualquer coisa, menos professora. Analisando as minhas opções, a ideia de fazer outra coisa agrada-me. Já sentiram isso? Vontade de não ser mais professor? Quanta cobrança. Pressão. Trabalho extra. Rouquidão. Alergia. Calos na garganta e nos pés. Tendinite.

Secretária: belas curvas, vários idiomas. Não tenho curvas e arranho no inglês. Não, não dá pra mim. Camelô: essa ideia me anima. Caminhar. Pegar sol. "Esta blusa está linda na senhora, combina com seu perfil (atriz também, pois preciso dissimular bem as gordurinhas da "freguesa")." Acho que também não, mas ainda tenho várias opções.

"Não sei porque os alunos gostam tanto deste laboratório de informática, aula boa era no meu tempo, não tinha essa coisa de tecnologia não, besteira isso". Dizia um professor em tom de ironia na hora do recreio, olhando-me de soslaio. Fito-o furiosa. Agora mais decidida ainda: vou largar o magistério. Quanta falta de companheirismo!

Lembro do meu juramento há alguns anos. Bom, deixemos pra lá este negócio de data, pois o que estou falando agora é sobre minha indignação em ser professora.Voltemos ao meu juramento. Jurei honrar minha profissão e zelar pelo bem estar dos meus alunos, torná-los críticos e conscientes, mediar seu conhecimento. Nada tinha sobre querer desistir, se cansar, horas extras, indignação, choro, carregar livros, ouvir injúrias, ver alunos desistindo, reprovados. Cansei de ver escolas sendo espaço de tristeza e exclusão. Nosso diploma deveria ter prazo de validade e selo do INMETRO.

Advogada. Chega de muita gente ao meu redor. Jovens ansiosos demais. Quanta energia. Quero um escritório bem decorado. Um "paciente" por vez. "Um cafezinho?" "Pois não?" "Qual o seu problema". Fico remoendo essa ideia a manhã toda. Hoje é dia de pagamento. Contas. Luz, água, telefone."Cafezinho?" "Aqui está o meu cartão". Terninho cinza, sapato bico fino. Sacudo a cabeça. Olho para meu jeans desbotado e meu tênis que há muito deixou de ser branco. Lembro que tenho que pagar a faculdade da filha, o aluguel. Penso no que vai sobrar: pouco.

O dia passa. Chega à noite e com ela os alunos da EJA. Cada um se dirige para um computador. Interrompem meus pensamentos.Uns falam alto, eufóricos. Eu, olhar cansado peço para abrirem o site da Caixa Econômica Federal, já sabem como navegar, mesmo sendo alunos da Alfabetização, peço que esperem a página abrir sem me mover.

Seu Oberlande, olhos vivos e muito falante, aposentado, tem 68 anos, uma alma extremamente grandiosa. Grita lá da máquina 10. "Ô Dona Rose, não vai conversar com a gente antes, não? A senhora sempre diz que temos que bater um papo antes de começar as pesquisas. Sabe como é? Será que dá pra ver aqui o FGTS do meu filho? caramba!!! não preciso mais enfrentar aquele filão." Pergunto molemente sobre o que ele deseja conversar. E ele responde: "ahhhhh sobre o que nós vamos pesquisar, né?Gostei desse negócio de não ter mais que enfrentar fila. Quero cadastrar meu CPF, sou isento, é assim que fala professora, isento? ou insento?" Balanço a cabeça. Silêncio. Olha para mim. Cala-se. Percebe que hoje não estou professora. Compreende. Eles sempre nos compreendem. Todos quietos visitando os links dos assuntos que os interessam mais. Discutem, conversam. Autonomia.

A aula acaba. Todos caminham para a porta. Beijam-me. Retribuo. Saio à rua feliz da vida. Olho o céu. A escola fica para trás, que alegria. Acho que vou ser fiscal da natureza. Penso nas contas e acordo para a realidade. Fico triste de novo. Mau humor total. Quero jogar na loteria. Carros, viagens, sol, praia.

Atravesso a rua alguém grita: Rosemary! Dona Lourdes. Minha professora da 4ª série. Nossa! faz tanto tempo! Aceno com um sorriso de alegria. Nunca me esqueci de seus olhos verdes. De como me fazia sentir importante em suas aulas. Fico olhando-a tentando lembrar algum traço daquele tempo. Ela continuava a mesma. Irradiava alegria e confiança. Alguns fios brancos caiam-lhe na testa. Existe algo melhor do que ser reconhecida na rua por sua professora do primário? Agora não é mais primário, eles mudam os nomes a cada governo. Ela sempre sabia o nome de todo mundo. Fazia a chamada e dizia nome e sobrenome de todos. Eu a olhava com admiração e respeito. Tratava a todos com carinho. Abraça-me. Pergunta-me sobre a vida. Respondo sorrindo: "Vou indo". Pergunta o que faço da vida e digo que sou professora também. Ela agita os braços e diz "eu tinha certeza que você seria, você nasceu professora, e deve ser das boas. Você demonstrava tanta intimidade com as letras. Falava de poesia como se bebesse as palavras. Somos colegas de profissão com muito orgulho." Diz que sente falta dos alunos, pois eles eram sua fonte de vida. Abraça-me novamente e convida-me para ir um dia a sua casa. Está aposentada. Despede-se.

Paro numa lanchonete, peço um pastel e um caldo de cana.Começo a pensar em Dona Maria de Lourdes (Pequeno Príncipe "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas").

Encontro alguns alunos, cadernos nas mãos, andar apressado. Fico observando como eles são bonitos. Não importa a idade, nem a cor, nada. Alunos são todos iguais: têm mágica, luz. É isso mesmo. Alunos, uniformes, sorrisos, tênis, alegria, encantamento. Características comuns.

Não vejo indisposição, nem tristeza.Gostam da escola.

Esta é uma pergunta que sempre faço e para a qual não tenho resposta ainda: Por que ficam reprovados? Por que desistem? Talvez seja para nos mostrar que estamos errando em alguma coisa, para mostrar que ainda é possível fazer algo por eles.

Na minha frente pára uma senhora, parece evangélica, bolsa encardida com rabiscos de caneta que mostravam seu nome. Vinha de mãos dadas com um senhor. Os dois eram nossos alunos. Marido e Mulher. Mãos dadas. Os ombros suportam a bolsa, o mundo.O mundo em seus cadernos e sonhos.

Quero vê-los mais amiúde. Investigar o que os fazem encantadores. Começo então a observar todos os alunos que passam no meu trajeto.Como eles são bonitos!

Sentir esta beleza, entretanto, depende do contexto. Por isso, as pessoas têm diferentes apreciações do que vêm. Cada um vê a partir de seu contexto. A cabeça pensa onde os pés pisam. O contexto fornece a ótica que penetra mais ou menos na riqueza da cena que se observa. Observo-os, enfim, para extravasar meu "sentimento de mundo", descrever o mistério e exercer, como professora, minha vocação. Só sei dizer o mundo através do que sinto.Vejo estes alunos e todos os outros que perpassam a minha vida, como dádivas de Deus. Desejo que um dia lembrem-se de mim. Não deve existir algo pior para um professor do que passar por aluno na rua e ele não reconhecê-lo. Reflito sobre eles. Suas vidas. Seus mistérios. É minha forma de oração para que possa tornar-me uma professora mais coerente com o que faço e digo.

Não importa de onde eles vêm. Da favela, da casa humilde, nem que dores carregam consigo, nem suas mágoas e marcas. Nada importa, nada tira sua beleza imaculada de aluno. Estou há dois dias escrevendo esta crônica. Pensando no que me faz achá-los tão bonitos caminhando pelas ruas. Uniformes variados pela cor e desbotamento, loiros, morenos, negros. Singulares. Quando o que eu queria mesmo era um motivo para desistir.

Acredito que levem consigo as dúvidas dos filósofos. Quem somos? De onde viemos? Para que estamos aqui? Tentar responder a essas questões deve ser o motivo que os levem à escola.

Ainda assim, prossigo perguntando-me qual seria o mistério que nos envolveu quando éramos alunos e nos sentávamos num banco escolar. E tenho ânsias de confessar que, no fundo, o que gostávamos mesmo era de tentar impedir que curassem a loucura que, por trás de nossa aparente normalidade, fazia de nós pessoas extremamente felizes só por sermos tão somente alunos.

Entre uma mordida e outra sinto meu humor melhorar. Decido que preciso pensar em algo diferente para a próxima aula. Nasci professora. Nascer professora deve também, às vezes, desistir de sê-lo sem na verdade querê-lo. Como sou importante na vida deles, quanto carinho eles têm por mim. Nada é mais importante do que isso. Penso no Seu Oberlande. Marinalva, Nelson, Dona Terezinha, 77 anos. Sorrio novamente.Vocação, trabalho, dom, serão bons assuntos para a próxima aula, eles precisam de perspectivas. Sinto-me viva novamente. Renasci professora. Morro e renasço a cada dia mais professora do que nunca. E cada vez mais me dou conta de que sem isso a minha vida não teria o menor sentido.

Publicado em 10/10/2006


Artigo
Gabriela Guarnieri de Campos Tebet
Inserindo a Matemática na Educação Infantil

A Educação Infantil brasileira passou por diversas transformações nos últimos 20 anos. Desde o final da década de 1980, universidades, movimentos sociais, partidos políticos, associações profissionais e mães têm debatido o modelo de Educação Infantil pretendido para as crianças brasileiras, influenciando as diretrizes estabelecidas na legislação do país.

A matemática e o projeto não-escolarizante de Educação Infantil

AmarelinhaA Educação Infantil brasileira passou por diversas transformações nos últimos 20 anos. Desde o final da década de 1980, universidades, movimentos sociais, partidos políticos, associações profissionais e mães têm debatido o modelo de Educação Infantil pretendido para as crianças brasileiras, influenciando as diretrizes estabelecidas na legislação do país.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB -, aprovada em 1996, estabelece, em seu artigo n. 29, que a Educação Infantil tem como finalidade “o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade”. Tal afirmação é resultado de uma nova maneira de compreender a criança que é vista como um ser ativo, competente, agente, produtor de cultura, pleno de possibilidades atuais e não apenas futuras.

Mas como trabalhar, no dia-a-dia da Educação Infantil, a partir de tais concepções? O quê ensinar para as crianças? Essas podem ser algumas dúvidas comuns de muitas professoras. Para respondê-las é importante compreender que as crianças estão inseridas no mundo e que, desde o seu nascimento, esforçam-se para compreendê-lo, reinventando e interagindo com ele a cada momento. Dessa forma, o papel do professor não seria tanto ensinar-lhes conteúdos, mas propiciar-lhes momentos e oportunidades para que explorem e descubram esse mundo.

Ao invés de apenas ensinar a matemática, poderíamos organizar o ambiente e disponibilizar para as crianças jogos e materiais que permitam desenvolver noções e conceitos matemáticos, que vão muito além de ensinar a contar.

Possibilitando às crianças um encontro com a matemática.

Existem muitas formas de conceber e trabalhar com a matemática na Educação Infantil. A matemática está presente na arte, na música, em histórias, na forma como organizo o meu pensamento, nas brincadeiras e jogos infantis. Uma criança aprende muito de matemática, sem que o adulto precise ensiná-la. Descobrem coisas iguais e diferentes, organizam, classificam e criam conjuntos, estabelecem relações, observam os tamanhos das coisas, brincam com as formas, ocupam um espaço e assim, vivem e descobrem a matemática. Contudo, é importante pensarmos que tipo de materiais podemos disponibilizar para as crianças a fim de possibilitar-lhes tais descobertas.

Existem no mercado diversos materiais que podem ser utilizados pelos professores para enriquecer o contato com o universo matemático. São músicas, livros de histórias infantis, encartes de revistas, brinquedos e jogos pedagógicos, que podem ser facilmente encontrados e que permitem à criança o contato com os números, com as formas, com as quantidades, seqüências, etc. Além desse material, é possível que o professor crie seu próprio material de trabalho, confeccionando quebra-cabeças, seqüências lógicas, desenvolvendo atividades com ritmo, oferecendo palitos e outros materiais, propondo jogos e brincadeiras e possibilitando a criação das crianças.

Quanto ao trabalho com os números, é importante compreendermos que estes são símbolos que representam graficamente uma quantidade de coisas que poderiam ser representadas de outra forma. Assim, antes de descobrir os números, é importante ajudarmos as crianças: dizer quantos têm, mostrar nos dedinhos e brincar com tudo isso. Posso indicar que tenho 2 coisas mostrando o dedo indicador e o médio, mas também posso fazê-lo mostrando o dedo mínimo e o polegar. De qualquer forma estarei mostrando 2 dedos. De quantas formas diferentes você é capaz de mostrar 3 dedos? E 5?

Se uma criança, ao mostrar 8 dedos para a professora, pergunta quantos dedos têm ali, ela pode receber a resposta ou ser estimulada a desenvolver o seu pensamento lógico-matemático. Posso responder que tem 8 dedos, como posso desafiá-la, dizendo que ali só tem um dedo e mostrar: 1, 1, 1, 1, 1, 1,1 e1. Diante da contestação da criança, posso então dizer que me enganei e que acho que ali tem 5 e 3, ou 4 e 4, fazendo com que ela descubra que os números são mais que eles mesmos, podendo ser um conjunto de outros números.

O importante é que o professor perceba que pode trabalhar a matemática na Educação Infantil sem se preocupar tanto com a representação dos números ou com o registro no papel, pode colocar em contato com a matemática crianças de todas as idades, desde bebês. Podemos pensar a matemática a partir de uma proposta não-escolarizante, que permita à criança criar, explorar e inventar seu próprio modo de expressão e de relação com o mundo. Tudo o que temos que fazer é criar condições para que a matemática seja descoberta, oferecer estímulo e estar atentos às descobertas das crianças.

Gabriela Guarnieri de Campos Tebet é Professora de Educação Infantil da Prefeitura Municipal de São Carlos; Pedagoga e Mestre em Educação pela UFScar. É co-autora do livro Trabalhando a diferença na educação infantil pela Moderna.

*Fotografias da própria autora. Tratamento de imagem: Mariana Guarnieri.



Artigo

Linguagem é construção

Raquel Menezes

Ser professor. Mais que uma profissão, trata-se de um modo de estar no mundo. Como o próprio verbo do enunciado já nos diz, é ser. Ser. Entre as tantas coisas que se é, é-se um rio que conduz os alunos pelo caminho do conhecimento, tanto pelo científico como pelo senso comum. O conhecimento científico, existente desde a Grécia Antiga, tem seu ápice a partir da revolução galileana. O senso comum ou conhecimento espontâneo, por outro lado mas não necessariamente em oposição, é resultado das experiências cotidianas feitas pelos homens como enfrentamento dos problemas diários. Por mais que possa parecer, o processo de conhecimento espontâneo não é solitário, já que constatações são trocadas entre os contemporâneos; mais ainda, são passadas de geração para geração, sendo assimiladas ao longo do tempo.

Com base nesses dois tipos de conhecimento (o científico e o espontâneo), o professor deve conduzir seus alunos. Pelos gestos, pelos discursos, pela linguagem. E o modus operandi dessa direção, digamos assim, mais humano, é o construtivismo, que teve início com Vygotsky, que, diferentemente de Piaget, deu a devida importância à situação social e ao meio.

Tanto Piaget quanto Vygotsky atribuem grande importância ao organismo ativo, mas Vygotsky destaca o papel do contexto histórico e cultural nos processos de desenvolvimento e aprendizagem, sendo chamado de sociointeracionista – e não apenas de interacionista, como Piaget. Este, por sua vez, coloca ênfase nos aspectos estruturais e nas leis de caráter universal (de origem biológica) do desenvolvimento, enquanto Vygotsky destaca as contribuições da cultura, da interação social e a dimensão histórica do desenvolvimento mental. Apesar das diferenças sutis, ao final ambos são construtivistas em suas concepções do desenvolvimento intelectual. Ou seja, sustentam que a inteligência é construída a partir das relações recíprocas do homem com o meio.

Da sentença-rio até o discurso

a sílaba é uma pedra álgida/sobre o equilíbrio dos olhos/se/as palavras são densas de sangue/e despem objectos
(Fiama Hasse Paes Brandão)

Qual a importância do texto? Não saberia responder. Nem vem ao caso. O relevante aqui é refletir sobre como a linguagem é pensada pelos professores, principalmente quando se trata da (linguagem) escrita. O que este texto se propõe a pensar é o ensino da língua através do uso, das relações da sociedade como meio, como afirmava Vygotsky, em oposição a meros desenhos de letras que constituem palavras descontextualizadas. Isso é alvo de uma critica poética por parte de João Cabral de Melo Neto, em “Rios sem discursos”. Há uma insistência em pensar a língua como algo meramente funcional e estanque, ao invés de usual e em construção de sentidos.

Se assim realmente fosse, a linguagem meramente funcional, ou seja, à disposição do uso do homem e não o contrário, como Freud explicaria o inconsciente por meio da importância da linguagem? Como pensar os atos falhos? Como entender os sonhos? Como ir para o “divã”, onde é tão decisiva a fala? A linguagem, para Freud, é a responsável pelos nossos atos, em virtude de tudo ser linguagem. Não é à toa que na terapia a fala, logo a linguagem, é o processo que pode chegar à cura.

Para falar de linguagem, ou melhor, de como esquecem que a linguagem é, por essência, um processo de construção, além da referência ao belo poema de Cabral de Melo Neto, cabe aqui citar o próprio Vygotsky, que afirma: “a passagem da fala interior, extremamente compacta, para a fala escrita, extremamente detalhada, exige o que se poderia chamar de semântica deliberada – a estruturação intencional da teia do significado". Desse modo, a linguagem, inclusive a escrita, deve ser vista de forma interativa com o meio sociolinguístico e sociocultural.

No processo de construção da linguagem escrita, portanto, a criança tem muito mais a aprender do que somente as letras e as combinações silábicas. (Como se a palavra fosse a água do rio, como sugere Cabral de Melo Neto: “Em situação de poço, a água equivale/a uma palavra em situação dicionária:/isolada, estanque no poço dela mesma,/e porque assim estancada, muda,/e muda porque com nenhuma comunica,/porque cortou-se a sintaxe desse rio,/o fio de água por que ele discorria.”). Para tal entendimento da construção da linguagem, o incentivo deve vir do professor, que, ao invés de resumir seu trabalho a classificar substantivos, preposições e partículas analíticas, deve, na verdade, contar com a gramática internalizada dos alunos, incentivando-os a pensar e a refletir sobre o uso da língua.

A extensa lista não é produtiva não só porque é esquematizada e transmitida à base de “decoreba”, mas também porque é falha, no que tange, por exemplo, às variadas classificações de um mesmo vocábulo, ou até mesmo de um sintagma. Exemplos disso são os vocábulos andar e belo. Nos enunciados: O menino belo correu até a minha direção e Eu ando, belo e ando, são, respectivamente, adjetivo e verbo intransitivo. Entretanto, em O belo saiu mais cedo da aula e em Eu ando muito triste, os mesmo vocábulos passam a ser classificados como substantivo e verbo de ligação. Ou seja, de acordo com o contexto o vocábulo passa assumir diferentes sentidos, classes e semânticas. Vale ressaltar também que ainda temos as figuras de linguagem, como a metáfora, que dão sentidos outros aos significantes: se falo está chovendo canivete hoje, não digo que está chovendo pequena faca de lâmina movediça que fecha sobre o cabo.

Os diversos discursos escritos construídos em interação com a criança devem ser pensados de maneira transitória, num processo contínuo de construção social. Porém, infelizmente, o que se tem feito são interpretações estanques, como no caso dos estilos de época. Além de parar a interpretação no estilo, muitas instituições têm adotado textos literários em elaborações de provas, quando, na verdade, poderiam sentenças de uso mais corrente.

Desse modo, o corpo docente dessas instituições deve perceber que a escrita tem de ser construída em interação com a criança; deve ser, portanto, motivada, relevante para a vida, necessária para a atividade em curso, desejada pela criança. Assim, a escrita construída em interação com a criança deve ser uma prática, um uso significativo de leitura e produção de textos, mais do que um ensino ou uma técnica. A escrita deve constituir-se como discurso (texto) significativo, inserido numa situação de produção significativa, ao invés de um simples manipular de letras, sons e palavras.

Insisto que o professor deve (sim, deve!) se dedicar a ensinar as palavras como se elas fossem o rio de João Cabral, pois só desse modo as palavras poderão permanecer, como são, “densas de sangue”, de vida, de construção, como nos fala Fiama. Para tanto, o contexto social será levado em consideração, não só na escrita do alunado, como também na leitura. A redação deve ser substituída pela produção textual. O simples leitor deve ser incitado a ser um leitor crítico, para, assim, a língua deixar de ser forjada como um instrumento, mas sim ser usada em processo de constante construção, como deve ser. (Sim, deve ser!). (Ou melhor: é!).

Publicado em 31 de março de 2009